segunda-feira, 27 de abril de 2015

Talvez Deus só se mostre no lançar-se ao desconhecido. Talvez Deus só exista através da fé e a fé seja, em última análise, confiar e se lançar, para depois reconhecer que dádivas esse salto trouxe. Talvez Deus seja apenas, e tão profundamente, confiança. Ato de crer que existe futuro, que existe chance e há caminho, ainda que não se veja de onde se está. Depararmo-nos com um caminho e com um futuro que não tínhamos condições de vislumbrar no passado, essa é a maior expressão de Deus pra mim. E isso é a maior prova de que O Divino é um contínuo, é a existência imponderável do fluxo, sem começo e fim. Não se pode compreender o eterno, mas pode-se confiar que ele nos atravessa de alguma forma misteriosa e fantástica.

quarta-feira, 15 de abril de 2015

Repetimos sobre amor
Ninguém nunca amou por aqui
O sol não dá descanso
Os dias não param
Sem sorrisos e sem abraços
Todo dia você se levanta
Sem motivos também
A sua finitude
Suas pequenas misérias
Sua solidão
Nada se pode extrair disso
Você deve levantar
Dia após dia
Fazer os trabalhos
Cumprimentar com bom-dias
Tolerar a bruteza
Do chefe, do sol e das tardes
A última vez que brincou
Faz sete anos
A última vez que amou
Foi um desastre
Na próxima vez que acordar
Planeja um salto
Da cama para a janela

segunda-feira, 16 de março de 2015

"O sexual não une, separa. Uma pessoa estar nua, colada à outra, é uma imagem, uma representação imaginária. A realidade é que o gozo nos conduz para longe, para muito longe do outro. A realidade é narcisista, o vínculo imaginário. Não há, portanto, relação sexual, conclui Lacan (...) Se não existe relação sexual na sexualidade, é o amor que vem suprir a falta de relação sexual."

Badiou, Elogio ao Amor.

Você parecia feliz brincando de ter razão nas nossas discussões de mentira. Me encarou bastante sorrindo e em silêncio. Não pude retribuir por muito mais que um segundo e pouco. Ainda tenho um pouco de medo que, me olhando nos olhos, me veja de verdade ou receio me afogar no escuro dos seus. Aí eu rio, falo besteiras pras quais pouco ligo e só têm mesmo um valor de cena. Uso meu corpo de casca, permanecendo a uma distância segura da superfície da pele.

segunda-feira, 23 de fevereiro de 2015

Queria ter alguém que me fizesse dormir, comer em horários regulares, dispensar preocupações inúteis, trabalhar com mais energia. Enfim, que fizesse o que eu mesma não ando fazendo por mim, ou porque não posso, ou porque sei lá.

Na real queria ter um abraço garantido em algum lugar da cidade, que entendesse.

Será que ele seria capaz de entender que algumas pessoas não tiveram tanta sorte e tanto amor no caminho que percorreram? Será que teria generosidade suficiente?

Às vezes acho que só alguém que dói pode alcançar certas coisas.

sexta-feira, 16 de janeiro de 2015

1 e 15 e a música aí deve estar alta. Quando pensa em mim, o que sente? Você fala tão pouco que não tenho certeza se nos comunicamos ou se trocamos mensagens criptografadas, em códigos milenares e desconhecidos. Só desvendamos parte delas. Será que meus enigmas te intrigam? O que será que adivinha, das partes que não compreende?

Hoje à noite vou enviar uma nuvem perfumada e rosa em meus sonhos. Tenho certeza que em sua forma difusa e duvidosa, compreenderá o essencial se deixá-la entrar por suas narinas até o peito.

quarta-feira, 14 de janeiro de 2015

Vou me educando ao ritmo lento dos seus passos. Você parece aprender a andar. Eu ofereço a mão, mas até isso você recusa: tem razão, talvez eu te puxasse um pouco mais além da sua segurança de ver onde pisa.

Você é como meu gato persa, me ensinando sem querer a arte da paciência, com sua independência hesitante que não posso contornar.

Embora esteja louca pra correr, preciso reconhecer: seu caminhar é belo e respeitável. Pouco entendo dele e pouco você pode explicar. É preciso confiar um pouco além do que meu espírito arisco se habituou.

Amar você exige movimentos pensados e um pouco de fé, que invento todas as noites.

Até nos encontrarmos e sermos nós, teremos saído bastante de nós mesmos.