O dano foi tão grande que não poderia consertá-lo simplesmente colocando você no buraco que fiz em meu próprio coração.
quinta-feira, 20 de novembro de 2014
sábado, 18 de outubro de 2014
Reflexões de flashbacks canábicos fora de hora: amei, com todas as minhas forças, de uma maneira totalmente desprovida de amor até hoje.
E amor é, num limite, respeitar a humanidade do outro.
É nada menos que impressionante perceber agora na minha postura supostamente romântica o quanto não pude amar de fato.
E o quanto amar é desafiador e raro. É uma forma de perfeição que só somos capazes de experimentar glimpses, pela nossa própria humanidade.
sexta-feira, 17 de outubro de 2014
segunda-feira, 13 de outubro de 2014
domingo, 12 de outubro de 2014
Ele tem um barco no peito
Que apenas se entrevê por trás dos pêlos
Suas dimensões exatas
Seguem um mistério
Eu digo que é um poema pronto
Ele me diz que é um barco numa tormenta
Quando cansados, fizemos silêncio
E pude escutar seu motor.
Rrrrr... som de preguiça e satisfação.
Rrrrr... barquinho num cais sem desligar o motor
Ele diz que quer viver no mar
Sem se dar conta que o leva consigo.
terça-feira, 23 de setembro de 2014
sábado, 13 de setembro de 2014
Flores de um longo inverno
Mexer com paixões é sempre perigoso. Invocá-las é um ato irresponsável. O que fazer quando bate?
Vago sozinha por ruas escuras e esse sentimento de vulnerabilidade nessas noites quentes eu já conheço. Eu busquei. Eu busquei? Eu desejei, aí está. Como me defender dessa exposição que fui eficazmente condicionada a detestar?
É tanta coisa, é tão potencialmente grandioso e devastador que nunca julgarei qualquer um digno disso. E, no entanto, aposto novamente. Eu tenho a razão e olhos objetivos que entretanto nada podem contra o animal louco e danado que tenho no peito. Seus dentes e suas patas se doendo por correr adentro do cheiro da noite são mais fortes que meus argumentos. Temo por ser mordida. Ele rosna se não o deixo solto, é enérgico e intratável. Será que se cansa logo mais na frente e dorme pacífico em meus pés, se eu for forte o suficiente pra soltá-lo sem temer? Será que se fere e a terceiros? Esse cão negro tem os olhos doidos de vida e um corpo que grita por danação e movimento. E, no limite, existe apenas eu e ele. Que importa que barulhos o atiçaram? Já nem sei de quem foram os passos. O que sei é do latido forte no quintal do peito, e desse bicho enorme, incrível e temível.
segunda-feira, 11 de agosto de 2014
segunda-feira, 4 de agosto de 2014
"Você sabe como cuidar de alguém". "Você sabe inspirar".
David Psicolouco Lynch, pipoca doce, bike por aí, cobertor azul, felinices, café na cama, d2 com hortelã, fotografia mas só p&b, colo, barba, bons sonhos, biju.
E paz e risadas.
quarta-feira, 23 de julho de 2014
Lou Reed's love'n'drugs
"Just a perfect day
you made me forget myself
I thought I was someone else
someone good
Oh, it's such a perfect day
I'm glad I spent it with you
Oh, such a perfect day
You just keep me hanging on
you just keep me hanging on"
Se você fosse um bicho, seria um lobo. É engraçado como parece que você anda sempre numa meia luz noturna, mesmo sob o sol.
Eu gosto do algo obssessivo com que você deseja seus desejos e da ternura com que me trata. É um tanto chocante no início lidar com alguém que mantém o domínio de paixões tão violentas e nunca as esconde.
E além de tudo é um bom amigo. Agradeço por ter você comigo.
domingo, 20 de julho de 2014
terça-feira, 15 de julho de 2014
A voz do anjo sussurrou no meu ouvido
Eu não duvido, já escuto os teus sinais.
Aqui e ali, numa sombra ou num canto. Às vezes vem no vento o ruído de uma onda distante, que eu sinto ainda pequena, mas que vai me encher. Quando olho, já se escondeu. Mas tudo vem sussurrando que eu me aquiete, me projetando pra onde devo estar. E eu estou cada dia mais perto de mim.
E eu agradeço baixinho que tu não vai ficar antes que eu possa me tornar o que sou, forte, feliz, serena e rebelde.
Será que você também percebe que caminha pra algo, com os olhos fechados, pois seus pés é que sabem por você onde vão?
Eu não duvido.
quarta-feira, 9 de julho de 2014
domingo, 6 de julho de 2014
Cabelos rebeldes
Acho que meu pai era um Doc de Campos Elíseos. Fundou um bloco e organizava excursões pra Saquarema. Disse que convidava as namoradas dos outros caras pros bailes de carnaval e pras viagens de graça. Eu disse "devia ter bastante gente que não gostava de você por aqui". Ele concordou.
Minha mãe viajou de cortesia em duas excursões. Sobraram vagas que foram distribuídas e eu pensei que provavelmente entre as garotas bonitas do lugar.
Meu padrinho, quando começou a namorar minha tia materna e madrinha, quase "tomou um pau" da turma que andava com meu pai. Ele disse que ninguém gostou de um preto estiloso de black, vindo do Rio, namorando uma das meninas da vizinhança. "Por ser preto?", eu pergunto. "Não, preto era o que mais tinha aqui. Era por causa do estilo mesmo". Eu ri e concordei, já vi uma foto dele jovem, de calça boca de sino.
Meu pai usava sandálias de pneu e ouvia Pink Floyd. Gostava de acampar na praia. Minha mãe levou anos pra namorá-lo, porque era "muito safado" e ela não queria problemas. Segundo meu padrinho, foi ele quem intercedeu com a turma pra deixarem de lado essa história de "dar um pau" no preto estiloso. Depois o forasteiro fez amizade jogando bem como atacante no time da turma. Virou um local, literalmente, casando com minha tia e indo morar no bairro.
Fiquei pensando por horas nesse hippie e nesse black, e no que devia ser ter cabelos rebeldes na periferia de Caxias e fui dormir pensando no bom trabalho que os dois fizeram em criar pras crianças da família um ambiente de tanto carinho.
terça-feira, 1 de julho de 2014
Cheiro de sol
Se drogar um pouco e passear por um lugar lindo com uma música mágica, voltar pra casa com alguém que cuida de você. Comer doce, brincar com a gata Se enroscar debaixo do cobertor mais gostoso desse mundo com alguém realmente muito bom em se enroscar. E depois de tocar Lou Reed, ainda fazer o sexo mais gostoso dessa vida. E quando ver, já dormimos.
Eu tinha medo de como seria lsa com outra pessoa. E, guess what, foi ainda melhor, e leve, e tranquilo.
O que ficou foi paz.
sábado, 28 de junho de 2014
Às vezes eu penso:
"Está tudo bem, eu só vou descansar e me proteger um pouco e aí tudo vai ficar bem".
E me pergunto se isso não é apenas eu sendo auto indulgente até que tudo dê errado.
Ou talvez seja só eu enrolando o máximo que posso pra fugir de responsabilidades e correndo atrás bem em cima da hora. Nem cura definitiva, nem tragédia inevitável. Só meu jeito próprio de andar sempre cambaleando.
quinta-feira, 26 de junho de 2014
quarta-feira, 25 de junho de 2014
A paixão dos suicidas
Contaram-me que o filho da vizinha tomou chumbinho na última sexta feira. Deixou uma carta dizendo que havia decidido não viver mais depois da morte de sua mãe. Tinha 19 anos e tomou uma mistura de veneno com coca-cola, o que fez com que se contorcesse em hemorragia, dor e desesperança por 5h, segundo os médicos, antes de ser encontrado pelo seu tio no chão da sala coberto de sangue, vômito e fezes.
Disseram que era muito amável. Os suicidas são sempre lembrados como amáveis. O estudante de cinema que se jogou do sétimo andar era também muito amável, dizem. Se atirou pra fora dessa vida da janela do seu quarto, enquanto sua mãe assistia televisão na sala. Não deixou qualquer bilhete.
Eu também seria lembrada como amável. Os amáveis se matam mais, será?
Eu deixaria um bilhete, declarando meu amor por familiares e amigos. Somente isso. E cortaria meus pulsos no box do banheiro. De alguma forma acho que meu banheiro, embora não tenha uma banheira pra submergir, é o local mais adequado. A limpeza do sangue seria mais simples.
Se eu não tivesse mais mãe, como o filho da vizinha morta, já tinha resolvido isso. Se eu não tivesse mais pai, nem irmão.
Mas eu tenho, e são o peso de uma âncora. E são âncoras e nada mais que, no final de tudo, tornam minha vida viável.
A paixão dos suicidas ainda não me tomou. Se ela chegar, será o triunfo de um argumento que não me deixou nunca, desde a infância.
terça-feira, 24 de junho de 2014
Uma cadela chamada Paixão II
Hoje eu tenho um encontro.
Droga."
Horas antes, eu nunca tenho vontade de ir aos encontros que marco. Devo estar ficando cada dia mais sem saco. Mas às 15h30 ela estaria lá me esperando, e eu tenho um mínimo de respeito. E fui, e ela parecia a imagem encarnada de Oxum, charmosa e rica, com enormes olhos e cílios. Eu fiquei pensando se ia conseguir trepar com ela. Gata demais pra mim.
No bar, não me acompanhou na cerveja. Usava mais maquiagem que eu e seu cabelo trançado parecia o de uma princesa africana. o meu estava recém lavado. Não me senti mulher, nem quis, nem fez falta. Eu parecia um babaca pensando na hora de tirar as roupas dela.
Ela é de Guadalupe, anda de patins e longboard. É linda, linda. Parece bem mais nova que eu. Estudantes, sempre me sinto velha perto deles.
E eu ainda não aprendi quando posso ou não beijar mulheres em público. Que merda de mundo escroto, pensei. Que merda deve ser passar a vida com vontade de beijar em público e não poder. Isso deixa poucas opções, então minha casa.
Muito gostosa. Preciso aprender esses lances de transar mulheres. Fui no feeling e parece que funcionou. Achei bom e estranho. Fiquei pensando num pênis, depois nos pênis para os quais não liguei muito nas últimas trepadas. Um pênis ali ia melhorar a situação? Senti falta de barba, de abraço protetor. Não senti qualquer conforto a mais do que achei que sentiria com homens. Nenhuma paixão a mais. A questão, vejam, não é pênis ou vagina, é claro que não. A questão é ter um coração cansado e sem muita esperança.
Tenho ofertado a meu próprio coração uma série de opções, que ele recusa como uma criança triste. O que fazer, Deus, com essa criança que não consigo animar com convites pras melhores brincadeiras e com os doces mais gostosos? Até brinquedos ofereci, meio transtornada por falta de resposta. A gente fica triste também, de saber que essa criança deve estar mesmo mais magoada do que deveria pra sua tão pouca idade.
Ainda espero aquele abraço de conforto? Não sei mais. Já não estou tão machucada. O que estou, então? Estou outra. Depois de se machucar e sarar como deu, acho que tenho uma perna torta, como quando se quebra e o osso cola errado. Será que vou precisar quebrar de novo pra por no lugar certo? Talvez não precise, talvez eu não ligue de ter um coração manco. Ou cínico.
O que eu procuro não existe.
sexta-feira, 20 de junho de 2014
Das diferenças de transar mulheres
quinta-feira, 19 de junho de 2014
Uma cadela chamada Paixão I
Certa manhã acordei de sonhos intranquilos. Sim, e isso pode ser um bom começo. Não que de fato tivesse tido algum sonho naquele cotoco de noite dormida, acho que não sonhei com qualquer coisa. Talvez tenha acordado pra sonhos intranquilos.
Acordei com a voz da Carol me chamando, depois de três horas dormidas. Precisava ir ao banco com ela. A sensação de acordar se arrastando pra fora da merda, ao mesmo tempo que se arrasta pra dentro do inferno é um dos jeitos mais comuns que tenho de acordar. E me arrastei, e na volta caiu uma chuva pesada. Porra, Às dez da manhã, frio, de chinelos e short, na chuva, sem guarda-chuva. É a vida me dando bom dia, pensei. Que bom dia do caralho.
Na noite anterior havia tomado três canecas enormes de café por volta de meia noite, achando que uma merda dessa pudesse me ajudar a estudar. Não, eu não estava inclinada a estudar. No meio do processo de enrolar, me baixou uma porra duma inquietação e voltei a importunar aquela ex amiga. Mandei uma mensagem, a confrontando pela última vez sobre os motivos de ter se afastado. Naturalmente me arrependi no minuto seguinte, tentando entender que ganho poderia ter com aquilo.
Ex amiga. A última vez que usei esse termo eu devia estar na terceira série do "primário". Uma parte da raiva que sinto com essa história é ter sido levada a uma situação ridícula que só cairia bem pra duas crianças imbecis.
Anyways, a confrontei, pela última vez. A história é a seguinte: eu tinha uma história com um cara. Antes de apresentá-los, por algum motivo, tinha a clareza em mente de que ia dar merda. Eles se viram duas vezes. Na primeira, na minha casa, percebi algo estranho no ar e num momento que deixei os dois sozinhos, ela já estava com o vestido levantado, rindo, enquanto ele olhava com uma cara de fome. Ela toma insulina. e por algum motivo inexplicável, achou que seria uma boa coisa levantar o vestido e fazer a aplicação na barriga, sentada do lado dele. no momento em que deixei o lugar. Eu obviamente percebi aquela piranhagem sutil e, sinceramente, eu não ligo pra piranhagens. Todos fazemos das nossas. Contei com o respeito de ambos praquilo não ficar feio e não disse nada.
Na segunda vez, estávamos numa festa. Ela chegou depois e ele disse que tinha assuntos pra falar com ela. Demonstrei o quanto aquilo era inadequado numa expressão de "não estou entendendo" e quando ela chegou, começaram a trocar olhares. Depois dividiram uma cachaça. Depois ela mexia no seu bolso e olhava nos seus olhos. E então eu já sabia que tudo estava fodido.
Esperei. Não demorou pra dias depois ela me mandar uma conversa com ele em que ele dava em cima dela, ela dizia que não entendia e assim ficou. Segundo ela, foi um gesto de lealdade. Mas essa não cola. Segundo eu mesma, foi um gesto de pessoa intriguenta, que cutucou onde viu chance até sair algo. Ela é daquele tipo que precisa reafirmar que tem poderes de sedução. E é bonita, mas deve ter alguma zica porque enquanto durou a amizade só a vi ter contato com um pau, que broxou. Eu, que não sou tão bonita, estava por aí nos meus rolos, e esse era o mais frequente.
E daí o resultado foi esse. Acabou o rolo e a amizade, depois que chamei ela num canto e da maneira mais sutil que consegui, que não foi exatamente sutil, disse a ela o que eu já tinha sacado, menos pra gerar discórdia e mais pra que ela ficasse ligada que não dá pra ficar de sacanagenzinha. Ela ficou mortalmente ofendida, ou pelo menos desconcertada e com a cara no chão, daí sumiu. Num momento em que tinha pelo menos umas trinta e sete merdas diferentes acontecendo na minha vida. E aquela porra fudeu comigo.
Fudeu comigo, tive um mês de merda, e passou, como tudo. Mas ontem à noite me deu essa vontade de implicância, ou vontade de jogar de novo no ventilador, sei lá. De qualquer forma, fui dormir horas depois, ainda com a cara cheia de café, sabendo que aquilo foi uma ideia de merda.
E toda vez que me excedo, minha dignidade acorda de ressaca no outro dia.
Ressaca de dignidade. Isso provavelmente define muita coisa do que sofri no último ano. E, acabo de perceber, fez já um ano. Podemos dar vários nomes pra esse sentimento que parece uma gosma pegajosa, mas sem dúvida, a dignidade de ressaca é uma boa imagem.
segunda-feira, 2 de junho de 2014
Ando pensando no molequinho que pegarei no colo pra acarinhar. Um moleque magrinho, que vai enrolar as pernas na minha cintura pra não sair do colo. Não vai ser pesado nem leve, e do tamanhozinho de encher meu abraço.
Molequinho meu, to preparando a mente e o coração desde já, porque no meu colo já tem a vontade de proteger você e os irmãos que vai ter.
Ontem me deu medo sonhar com você, mas me lembrei de quantos sonhos concretizei nesses tempos e o quão inatingíveis eles já pareceram. Por isso, te convido a visitar mais vezes a minha imaginação. Tô vendo que você estará logo mais na frente, na minha vida.
:)
domingo, 1 de junho de 2014
Lições da bicicleta
- meu corpo é capaz de mais do que imagino
- imprimi-lo a certas coisas produz muito prazer
- tenho mais experiência do que imagino
- meu corpo se molda e aprende rápido
- meus erros são, principalmente, por medo de errar
- na maior parte das vezes, dá pé. é só não hesitar
- o mundo é perigoso, mas bem menos do que de fato imagino
- aprenda com os mais experientes, pois tem sim gente aberta a ensinar
- a distância entre eu e quem tem experiência é apenas isso, experiência. não há qualquer coisa em mim que me impeça de atingir coisas parecidas
- o Rio é outro de cima de duas rodas
- bananas são indispensáveis no cardápio
- tenho um bom amigo, que cuida de mim com atenção
Bliss
"The thought of you now makes me a little unbearably happy"
Minha América, enquanto te avisto do mar
Que seja eu uma das três naus bem sucedidas
<3
Já estou leve e docemente apaixonada, pequeno e estranho Novo Mundo :)
Minhas mãos coçam pra segurar as suas e te levar por aí pra fazer coisas bobas e belas
Não vejo a hora de conhecer que delícias há nos seus mistérios, com olhos arregalados de espanto por você me revela-los
Flor
:)
quinta-feira, 17 de abril de 2014
sábado, 12 de abril de 2014
nela faltavam plantas
e comprei duas
no supermercado.
o antúrio morreu,
a jibóia, não.
mas ainda faltavam plantas.
arrumei um lírio,
grande e da paz.
pus num vaso,
grande e de cerâmica,
seguindo prescrições
da senhorinha
da floricultura.
a senhorinha
me explicou ainda:
o antúrio morreu
porque tinha
a raiz
envenenada.
não fique triste
com essas plantas
de supermercado,
ela disse.
esses antúrios
são todos lindos,
mas mortos
por dentro.
isso confortou meu coração.
num fim de semana
o lírio murchou
e dei um berro
quando vi.
o que eu teria feito?
um dia apenas
um dia a menos
de água
teria podido
causar esse estrago?
não.
amigos disseram:
"plantas... você sabe.
são sensíveis
a, você entende...
energias.
ruins."
isso me assustou.
não dormi naquele dia
e molhei três vezes
o lírio murcho
e também a jibóia,
por precaução.
de manhã, minha mãe ao telefone
me disse:
"o que falta é uma
comigo-ninguém-pode,
espada de são jorge
ou arruda da síria."
eu entendi o que ela queria dizer.
e ela continuou:
"mas não tente a arruda.
é sensível.
vai morrer."
à tarde, consternada,
numa nova floricultura
comprei uma muda
de arruda da síria.
o homem da loja
me fez prescrições
de sol
de água
de terra.
segui todas
como num ritual seríssimo
em que se mexe
com coisas desconhecidas e perigosas.
a arruda é um enigma:
permanece no sol,
sem viço algum,
há três semanas.
sem melhorar
nem piorar,
mas crescendo.
está lá na frente, na varanda.
ninguém vê
o que ela tem passado
guardando minha porta.
nem mesmo a jibóia
tem a sensibilidade,
embora cresça
mais do que nunca.
só eu
e o lírio,
que finalmente
florecemos.
E tudo tem um desfecho tão baixo, tão indigno, tão mesquinho. Não sei dizer porque. Parece que toda a grandiosidade que experimento nunca é compartilhada. Devo ser de fato uma pessoa desinteressante. Por que não atraio o encanto de quem me encanta? Nunca. O que se precisa fazer nessa vida pra ser correspondido? Que grande merda, eu sei o que se precisa fazer. Primeiramente, é preciso ter o charme que não tenho. Depois o carisma e a autoconfiança. Onde é que se arranja tais coisas? Eu não devo ter nascido pra dar certo.
Por que todo mundo é tão mais importante pra mim do que sou pra eles? Devo ter nascido com um defeito sério, tão sério, que me maltrata o coração a cada passo. E é um abismo, melhor não se deixar aproximar porque a vertigem vai te engolir e aí não tem volta.
Como estou jogada nessa vida. Tento recolher meus cacos, mas eles vão sempre caindo pelo caminho, vou sempre perdendo um pedacinho ou outro. Isso cansa. Esse papo todo de que é preciso estar bem sozinha pra estar bem com alguém... que preguiça. Fodam-se todas as teorias sobre felicidade, nenhuma delas preenche meu buraco no peito!
A vida acontecendo e eu aqui, observando os outros, em brasa, em faíscas, tão fantásticos, enquanto me apago. Se eu parasse de espiar, se eu pulasse no mundo e brilhasse e faiscasse também, talvez... não. Se eu pulo no mundo, pulo no vazio. De alguma forma cultivei uma estranha solidão que se interpõe entre mim e qualquer tentativa de me aproximar dos outros, da vida. É sempre abrupto, sem jeito, sem noção.
Todo mundo "curtindo o sabadão" ou "fazendo amor e não jogo", ou sei lá, fazendo qualquer merda que é melhor que não conseguir estudar nem sossegar o coração.
Por algum motivo eu acho que se chorar bastante, alguém vai sentir pena e me botar no colo. Isso não é verdade. Não há colo nessa vida pra mim. Não adianta chorar. O óbvio seria, vamos em frente, então, cavucar algo dessa bosta toda, né?
Mas eu devo ser mais baixa que o mais baixo de todos pra estar passando por essa enquanto ele comemora a felicidade de estar apaixonado e ser correspondido.
Que que eu faço, então, pra encontrar conforto? Que que eu faço pra parar de viver assim tão de coração partido? Estou cansada... E não adianta repetir isso, Deus não vai ouvir, Deus não te ouve e nem você a ele. Se Deus me ouvisse, me quebrava esse galho, que não faz mal a ninguém! E se Deus não me ouve, se os caras não se importam, se os amigos estão distantes, sei que devo encontrar a força pra me cuidar em mim. Eu sei disso. Eu sei que essa é a resposta, mas de alguma forma eu simplesmente não quero. Não quero o trabalho disso, não quero me expor, não quero me responsabilizar. E, apesar disso, é o que preciso aprender a fazer. Me expor, me sustentar, me garantir. E eu gosto de culpar minha criação, que não me ensinou nada sobre isso, porque minha mãe não sabe nada sobre isso e porque meu pai sempre tomou pra si a responsabilidade de fazer tudo isso. Mas há quanto tempo eu já saí disso? Sequer moro com eles. Há quantos anos eu vejo que isso é o que preciso fazer e me nego?
Porra, eu não sou mais adolescente. Nem quero ser. Caralhos. Também não quero ser adulta, muito verdade. E me dói pensar que já tenho 24 anos e pouco avancei, pouco fiz por mim, passei a vida vivendo em função dos outros. Acho que tá na hora de viver em função de mim, eu to tentando, mas to tentando errado ainda, talvez.
Vou comprar uma bicicleta ou começar a correr, não sei! Que merda. Uma bicicleta, talvez, afinal casar não deu certo.
segunda-feira, 31 de março de 2014
Voltas na beira do precipício
Ok, já deu a hora de me sentir miserável por não ficar bem sozinha. E miserável por estar sozinha.
A última vez que me amaram, com respeito, de verdade, foi em 2010.
Caminho tá sendo longo, e não vai encurtar se eu espernear.
Caralho.
Po Deus, já não deu a hora de dar uma força? Ajuda aí. Se não for nisso, que seja naquilo.
Eu sei que não deveria pensar em me envolver com ninguém deprimida e ainda falta algumas semanas pra de fato melhorar. O que não quer dizer que quando melhorar vai ter alguém me esperando.
Enfim.
Porra de solidão incurável. Porra de vazio que dói. Porra de auto desvalorização. Porra de vida.
Ninguém percebe, ninguém ajuda. Ninguém entende e ninguém tá suficientemente próximo pra isso. Como não vou querer me envolver e me abrir? Parece agora que é o jeito de dar sentido às coisas. Eu sei o quanto isso é uma furada, mas é o que tá aqui dentro.
Porra Deus, ajuda aqui! Tá foda, to muito cansada.
Ainda tô esperando o abraço de conforto por tudo o que aconteceu.
sábado, 29 de março de 2014
Ainda cumpro o mesmo ritual, toda vez que volto à casa da família: fumar um cigarro, de madrugada, na janela do quarto, hoje vazio. Respiro a noite e Caxias, enquanto observo a rua vazia. Tão vazia que fica pequena, e olho toda ela e é como se fosse minha. Gosto desse cigarro e dessa última olhada ao redor, como se eu detivesse o poder de encerrar as atividades pelo dia. Por isso durmo depois de todos.
O quarto vazio me traz preocupações. Terão meus pais preenchido os espaços que deixei? Espero que sim, e parece que sim. No entanto no quarto só permanecem as poucas coisas minhas que não quis levar.
Num novo último cigarro, me procuro novamente na janela. Nada está mais aqui. E pensar no meu quarto em São Cristóvão me deixa com o coração espalhado pela cidade. Uns pedaços aqui, outros lá, e os muitos que distribuí e já não encontro mais. Devem ter ficado em alguma calçada entre o trabalho e a cerveja desses homens indiferentes e imunes.
E eu, quando é que fico imune? Ou ao menos, quando é que reúno novamente todos esses pedaços, perdidos, distribuídos ou deliberadamente espalhados, de mim mesma? Inventario os que ainda me restam: não são muitos. Velho Buk disse que só se deve apostar quando se pode perder. Penso se conseguirei caminhar feito pessoa pela vida se perder mais alguns deles. Sem dúvida, é um risco irresponsável de se correr.
E então, como um cão danado, ponho mais fichas na última rodada de um jogo de tarot sem ases ou copas, enquanto o dealer observa desacreditado.
Deus ilumine o que faço desse coração.
terça-feira, 18 de março de 2014
Agora, de perto, vejo
Quanto de gato
Há no leão.
Silencioso
Tem uma noite no fundo da voz
Que nunca se revelará
Totalmente.
Me confessa, então:
Você nunca foi um leão.
Mas seu gato é esperto
E representa bem a realeza,
Quando necessário
Ou conveniente.
Como se tratam os gatos
Observo você e suas vontades.
Que criaturas mais haverá
Debaixo desse cabelo
e por traz do sorriso ambíguo?
Seus olhos são puxados demais,
Castanhos demais,
Pra me darem pistas.
Mas só um herege
Não agradeceria.
Obrigado, Deus,
Pelos seres inomináveis!
quarta-feira, 12 de março de 2014
terça-feira, 11 de março de 2014
Te dei os remendos
E esparadrapos
Que usava no peito.
E agora?
Vai ou não vai consertar aos beijos esses buracos?
A vida chamará
E se não chamar
Eu mesma faço:
Veja lá! O preço não é alto mas será cobrado!
Eu não custo caro
E só não me dou de graça
Porque aprendi a tapas
Que cada um tem seu valor.
Então pague em dia com carinho devido e aprenda cedo que
Nada é de graça na contabilidade do amor.
Eu te recusei ontem
Te recusei na última segunda
Será que não percebe
Que não tenho mais pedaços
De coração pra você levar?
sempre a prestação
Beliscando...
Você não virá pra ficar
E se fica nesse vai e vem
como posso deixar
Que me leve parcelada
Pra perder nas esquinas?
Vou ficando vazia...
Não precisa me encher de você
Mas se vai me tomar de mim
Fique ao meu lado, ao menos.
domingo, 9 de março de 2014
quinta-feira, 6 de março de 2014
Os garis varrem a Quinta de cabeça baixa
A greve terminou com os cães
Fardados a rosnar
A chuva não lavou os confetes,
Estes os garis varrerão.
A chuva nem sequer lavou as cinzas de quarta
Enquanto cães do carnaval,
Dormem agora de ressaca
Por mais um ano.
e a gente mais uma vez se atira
Ao grande cão do capital.
Dentes brancos da cidade rosnam na nuca
De cada coração cansado que anda no metrô
E que pede: que o sol não volte.
Durma ele também e deixe chover.
Falta chover muito, muito mais.
quinta-feira, 20 de fevereiro de 2014
O leão dormindo
O leão dormindo, em sua majestade, relaxa. Ronca um ronco engraçado, enquanto sua juba cai majestosa nos travesseiros. Se você olhar bem, vê disfarçado um pequeno gato, um bichinho peludo, que você pode abraçar, e é quente e macio.
Não acordemos o leão, não o abracemos apertado demais. Dormindo, o leão quer ser coberto e oferecer parte do peito como travesseiro. Não o faça sentir-se como o gatinho peludo. Quando ele se tornar o pequeno gato, aprecie, mas não desarme sua majestade. Deixe-o em sua pose. Se ele se ver como um gato, saltará, num susto, arisco como um. E não queremos isso.
Respeite o leão ostensivamente para aproveitar sutilmente o gato. Ambos nunca notarão que, por alguns instantes da noite, você tem e brinca com os dois.
Novamente agradeçamos: obrigada, Deus, pelos leões!
domingo, 16 de fevereiro de 2014
Negocio com teus santos
Se você anda fugindo
Quem sabe os seduzindo
Não te tragam pra mim?
Jogo um jogo sujo
De te encurralar em encruzilhadas
E até seus anjos duvidam
Das minhas boas intenções
Se você vier devagarinho
Seguindo o som do meu feitiço
Te dou colo, carinho
E um coração grande e leal
Mas se você teima
Em não ouvir o pedido
Te prepara e reza
Pra escapar da cilada
Te dou uma volta
Numa rua escura
E quando perceber
Tarde! Não tem saída.
Então seja bonzinho
E ouça o que digo
Vem de mansinho
Que tua vida facilito.
Pedi a todos os santos
Que te mostrem nosso destino
Eu o vi nas estrelas,
nas cartas, nos sonhos
E nas suas artes de menino.
Um fio brilhante
Que me atrai como a um gato curioso.
Fiz promessas e li a sorte
E de tanto lê-la já não posso entender:
Um vendaval passou nas minhas ideias
E meu coração está agora
Coberto de folhas, a doer.
Pedi aos santos e deuses,
Eles nada me respondem.
Já não me mostram mais caminho
Depois que você pôs
o coração na prateleira mais alta.
De noite eu procuro
Uma luz acesa e um sinal verde
E mais vendavais passam
Pela minha cabeça aberta:
Suas janelas estão cerradas.
Ainda espero aquela espera fria e dura
Pelas suas mãos quentes.
Terão os sinais me enganado?
Às vezes só se vê o que quer.
E nessa trama sem fim
Vejo que meu coração
Tramou e feio contra mim.
Virá o dia do sol?
Duas copas brindarão?
Você educadamente
Mostra que não há motivos
Pra tal ilusão.
Farei feitiços e amarração
Viro bruxa e te encanto
Com um encantamento tal
Que você nunca mais
Vai poder me dizer não.
Tomarei nas minhas mãos
As magias do destino
Tão incríveis que vão fazer
logo menos você ver
Que eu estou no seu caminho.
E se nada disso remediar
Me recolho com minhas palavras
E guardo minhas estratégias
Pra esperar paciente
Por um amor que já nasça
encantado sem se esforçar.
segunda-feira, 10 de fevereiro de 2014
quarta-feira, 22 de janeiro de 2014
sexta-feira, 17 de janeiro de 2014
quarta-feira, 15 de janeiro de 2014
solidariedade
terça-feira, 14 de janeiro de 2014
"Trilhe os caminhos da aventura"
terça-feira, 7 de janeiro de 2014
Uma não visita
segunda-feira, 6 de janeiro de 2014
quinta-feira, 2 de janeiro de 2014
da Quinta da Boa Vista.
Somos de espécies diferentes,
aquela realeza vagabunda nunca teve
qualquer apelo ao meu coração.
Não sei se é preguiça ou mau humor.
você já viu um leão de perto?
Já foi mordida por um?
Sabia que de manhã eles correm
pelo parque, vaidosos,
pra manter um corpo admirável?
Certamente não sabe que ouvem e fazem música
em rádios francesas que tocam groove e soul
e de noite reúnem amigos antigos de lugares distantes
pra diversões que eu e você jamais conheceremos.
Com suas jubas e patas e garras e dentes
São incríveis e lindos e vivos e ferozes.