quarta-feira, 15 de janeiro de 2014

solidariedade

madrugada sem fim, de não se deixar dormir. eu conheço bem isso: é medo de acordar no outro dia. o mundo urgirá com o sol, possivelmente me engolindo. quem sabe não consigo me esconder no escuro dessas horas pra sempre? 

precisando de um alento de alma pra me ajudar a encarar a selvageria diária.

deito nesse urso que me foi presenteado. é um urso besta e empoeirado, mas não tem culpa do enjoo que causa. foi apenas uma peça num jogo de mesquinharias desamorosas. besta, triste e também merece uns abraços. faço um carinho no seu queixo.

eu e você, urso, duas peças. será que você conseguiu refazer seu coração do tempo trancado no armário? a gente sempre se arrepende de certas rudezas do passado e espero que você me perdoe por essa. não pedimos pra dividir esse quarto, nunca nos desejamos. será que nessa noite, finalmente, conseguiremos perdoar a figura terrível que nos deixou compartilhando essa tarefa de ser, eternamente, fofura decorativa, pegando poeira pelo chão?

os planos são estes: dou um gostoso banho a seco nesse bicho enorme e faço ele de presente a um bebê que está pra nascer. 

desejo pra mim esse seu destino, coisa poeirenta.

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