eu precisava de uma casa, então me mudei.
nela faltavam plantas
e comprei duas
no supermercado.
o antúrio morreu,
a jibóia, não.
mas ainda faltavam plantas.
arrumei um lírio,
grande e da paz.
pus num vaso,
grande e de cerâmica,
seguindo prescrições
da senhorinha
da floricultura.
a senhorinha
me explicou ainda:
o antúrio morreu
porque tinha
a raiz
envenenada.
não fique triste
com essas plantas
de supermercado,
ela disse.
esses antúrios
são todos lindos,
mas mortos
por dentro.
isso confortou meu coração.
num fim de semana
o lírio murchou
e dei um berro
quando vi.
o que eu teria feito?
um dia apenas
um dia a menos
de água
teria podido
causar esse estrago?
não.
amigos disseram:
"plantas... você sabe.
são sensíveis
a, você entende...
energias.
ruins."
isso me assustou.
não dormi naquele dia
e molhei três vezes
o lírio murcho
e também a jibóia,
por precaução.
de manhã, minha mãe ao telefone
me disse:
"o que falta é uma
comigo-ninguém-pode,
espada de são jorge
ou arruda da síria."
eu entendi o que ela queria dizer.
e ela continuou:
"mas não tente a arruda.
é sensível.
vai morrer."
à tarde, consternada,
numa nova floricultura
comprei uma muda
de arruda da síria.
o homem da loja
me fez prescrições
de sol
de água
de terra.
segui todas
como num ritual seríssimo
em que se mexe
com coisas desconhecidas e perigosas.
a arruda é um enigma:
permanece no sol,
sem viço algum,
há três semanas.
sem melhorar
nem piorar,
mas crescendo.
está lá na frente, na varanda.
ninguém vê
o que ela tem passado
guardando minha porta.
nem mesmo a jibóia
tem a sensibilidade,
embora cresça
mais do que nunca.
só eu
e o lírio,
que finalmente
florecemos.
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