domingo, 6 de julho de 2014

Cabelos rebeldes

Acho que meu pai era um Doc de Campos Elíseos. Fundou um bloco e organizava excursões pra Saquarema. Disse que convidava as namoradas dos outros caras pros bailes de carnaval e pras viagens de graça. Eu disse "devia ter bastante gente que não gostava de você por aqui". Ele concordou.

Minha mãe viajou de cortesia em duas excursões. Sobraram vagas que foram distribuídas e eu pensei que provavelmente entre as garotas bonitas do lugar.

Meu padrinho, quando começou a namorar minha tia materna e madrinha, quase "tomou um pau" da turma que andava com meu pai. Ele disse que ninguém gostou de um preto estiloso de black, vindo do Rio, namorando uma das meninas da vizinhança. "Por ser preto?", eu pergunto. "Não, preto era o que mais tinha aqui. Era por causa do estilo mesmo". Eu ri e concordei, já vi uma foto dele jovem, de calça boca de sino.

Meu pai usava sandálias de pneu e ouvia Pink Floyd. Gostava de acampar na praia. Minha mãe levou anos pra namorá-lo, porque era "muito safado" e ela não queria problemas. Segundo meu padrinho, foi ele quem intercedeu com a turma pra deixarem de lado essa história de "dar um pau" no preto estiloso. Depois o forasteiro fez amizade jogando bem como atacante no time da turma. Virou um local, literalmente, casando com minha tia e indo morar no bairro.

Fiquei pensando por horas nesse hippie e nesse black, e no que devia ser ter cabelos rebeldes na periferia de Caxias e fui dormir pensando no bom trabalho que os dois fizeram em criar pras crianças da família um ambiente de tanto carinho.

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