Mexer com paixões é sempre perigoso. Invocá-las é um ato irresponsável. O que fazer quando bate?
Vago sozinha por ruas escuras e esse sentimento de vulnerabilidade nessas noites quentes eu já conheço. Eu busquei. Eu busquei? Eu desejei, aí está. Como me defender dessa exposição que fui eficazmente condicionada a detestar?
É tanta coisa, é tão potencialmente grandioso e devastador que nunca julgarei qualquer um digno disso. E, no entanto, aposto novamente. Eu tenho a razão e olhos objetivos que entretanto nada podem contra o animal louco e danado que tenho no peito. Seus dentes e suas patas se doendo por correr adentro do cheiro da noite são mais fortes que meus argumentos. Temo por ser mordida. Ele rosna se não o deixo solto, é enérgico e intratável. Será que se cansa logo mais na frente e dorme pacífico em meus pés, se eu for forte o suficiente pra soltá-lo sem temer? Será que se fere e a terceiros? Esse cão negro tem os olhos doidos de vida e um corpo que grita por danação e movimento. E, no limite, existe apenas eu e ele. Que importa que barulhos o atiçaram? Já nem sei de quem foram os passos. O que sei é do latido forte no quintal do peito, e desse bicho enorme, incrível e temível.
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