sábado, 29 de março de 2014

Ainda cumpro o mesmo ritual, toda vez que volto à casa da família: fumar um cigarro, de madrugada, na janela do quarto, hoje vazio. Respiro a noite e Caxias, enquanto observo a rua vazia. Tão vazia que fica pequena, e olho toda ela e é como se fosse minha. Gosto desse cigarro e dessa última olhada ao redor, como se eu detivesse o poder de encerrar as atividades pelo dia. Por isso durmo depois de todos.

O quarto vazio me traz preocupações. Terão meus pais preenchido os espaços que deixei? Espero que sim, e parece que sim. No entanto no quarto só permanecem as poucas coisas minhas que não quis levar.

Num novo último cigarro, me procuro novamente na janela. Nada está mais aqui. E pensar no meu quarto em São Cristóvão me deixa com o coração espalhado pela cidade. Uns pedaços aqui, outros lá, e os muitos que distribuí e já não encontro mais. Devem ter ficado em alguma calçada entre o trabalho e a cerveja desses homens indiferentes e imunes.

E eu, quando é que fico imune? Ou ao menos, quando é que reúno novamente todos esses pedaços, perdidos, distribuídos ou deliberadamente espalhados, de mim mesma? Inventario os que ainda me restam: não são muitos. Velho Buk disse que só se deve apostar quando se pode perder. Penso se conseguirei caminhar feito pessoa pela vida se perder mais alguns deles. Sem dúvida, é um risco irresponsável de se correr.

E então, como um cão danado, ponho mais fichas na última rodada de um jogo de tarot sem ases ou copas, enquanto o dealer observa desacreditado.

Deus ilumine o que faço desse coração.

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