quarta-feira, 25 de junho de 2014

A paixão dos suicidas

Contaram-me que o filho da vizinha tomou chumbinho na última sexta feira. Deixou uma carta dizendo que havia decidido não viver mais depois da morte de sua mãe. Tinha 19 anos e tomou uma mistura de veneno com coca-cola, o que fez com que se contorcesse em hemorragia, dor e desesperança por 5h, segundo os médicos, antes de ser encontrado pelo seu tio no chão da sala coberto de sangue, vômito e fezes.

Disseram que era muito amável. Os suicidas são sempre lembrados como amáveis. O estudante de cinema que se jogou do sétimo andar era também muito amável, dizem. Se atirou pra fora dessa vida da janela do seu quarto, enquanto sua mãe assistia televisão na sala. Não deixou qualquer bilhete.

Eu também seria lembrada como amável. Os amáveis se matam mais, será?

Eu deixaria um bilhete, declarando meu amor por familiares e amigos. Somente isso. E cortaria meus pulsos no box do banheiro. De alguma forma acho que meu banheiro, embora não tenha uma banheira pra submergir, é o local mais adequado. A limpeza do sangue seria mais simples.

Se eu não tivesse mais mãe, como o filho da vizinha morta, já tinha resolvido isso. Se eu não tivesse mais pai, nem irmão.

Mas eu tenho, e são o peso de uma âncora. E são âncoras e nada mais que, no final de tudo, tornam minha vida viável.

A paixão dos suicidas ainda não me tomou. Se ela chegar, será o triunfo de um argumento que não me deixou nunca, desde a infância.

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