"Certa manhã acordei de sonhos intranquilos".
Certa manhã acordei de sonhos intranquilos. Sim, e isso pode ser um bom começo. Não que de fato tivesse tido algum sonho naquele cotoco de noite dormida, acho que não sonhei com qualquer coisa. Talvez tenha acordado pra sonhos intranquilos.
Acordei com a voz da Carol me chamando, depois de três horas dormidas. Precisava ir ao banco com ela. A sensação de acordar se arrastando pra fora da merda, ao mesmo tempo que se arrasta pra dentro do inferno é um dos jeitos mais comuns que tenho de acordar. E me arrastei, e na volta caiu uma chuva pesada. Porra, Às dez da manhã, frio, de chinelos e short, na chuva, sem guarda-chuva. É a vida me dando bom dia, pensei. Que bom dia do caralho.
Na noite anterior havia tomado três canecas enormes de café por volta de meia noite, achando que uma merda dessa pudesse me ajudar a estudar. Não, eu não estava inclinada a estudar. No meio do processo de enrolar, me baixou uma porra duma inquietação e voltei a importunar aquela ex amiga. Mandei uma mensagem, a confrontando pela última vez sobre os motivos de ter se afastado. Naturalmente me arrependi no minuto seguinte, tentando entender que ganho poderia ter com aquilo.
Ex amiga. A última vez que usei esse termo eu devia estar na terceira série do "primário". Uma parte da raiva que sinto com essa história é ter sido levada a uma situação ridícula que só cairia bem pra duas crianças imbecis.
Anyways, a confrontei, pela última vez. A história é a seguinte: eu tinha uma história com um cara. Antes de apresentá-los, por algum motivo, tinha a clareza em mente de que ia dar merda. Eles se viram duas vezes. Na primeira, na minha casa, percebi algo estranho no ar e num momento que deixei os dois sozinhos, ela já estava com o vestido levantado, rindo, enquanto ele olhava com uma cara de fome. Ela toma insulina. e por algum motivo inexplicável, achou que seria uma boa coisa levantar o vestido e fazer a aplicação na barriga, sentada do lado dele. no momento em que deixei o lugar. Eu obviamente percebi aquela piranhagem sutil e, sinceramente, eu não ligo pra piranhagens. Todos fazemos das nossas. Contei com o respeito de ambos praquilo não ficar feio e não disse nada.
Na segunda vez, estávamos numa festa. Ela chegou depois e ele disse que tinha assuntos pra falar com ela. Demonstrei o quanto aquilo era inadequado numa expressão de "não estou entendendo" e quando ela chegou, começaram a trocar olhares. Depois dividiram uma cachaça. Depois ela mexia no seu bolso e olhava nos seus olhos. E então eu já sabia que tudo estava fodido.
Esperei. Não demorou pra dias depois ela me mandar uma conversa com ele em que ele dava em cima dela, ela dizia que não entendia e assim ficou. Segundo ela, foi um gesto de lealdade. Mas essa não cola. Segundo eu mesma, foi um gesto de pessoa intriguenta, que cutucou onde viu chance até sair algo. Ela é daquele tipo que precisa reafirmar que tem poderes de sedução. E é bonita, mas deve ter alguma zica porque enquanto durou a amizade só a vi ter contato com um pau, que broxou. Eu, que não sou tão bonita, estava por aí nos meus rolos, e esse era o mais frequente.
E daí o resultado foi esse. Acabou o rolo e a amizade, depois que chamei ela num canto e da maneira mais sutil que consegui, que não foi exatamente sutil, disse a ela o que eu já tinha sacado, menos pra gerar discórdia e mais pra que ela ficasse ligada que não dá pra ficar de sacanagenzinha. Ela ficou mortalmente ofendida, ou pelo menos desconcertada e com a cara no chão, daí sumiu. Num momento em que tinha pelo menos umas trinta e sete merdas diferentes acontecendo na minha vida. E aquela porra fudeu comigo.
Fudeu comigo, tive um mês de merda, e passou, como tudo. Mas ontem à noite me deu essa vontade de implicância, ou vontade de jogar de novo no ventilador, sei lá. De qualquer forma, fui dormir horas depois, ainda com a cara cheia de café, sabendo que aquilo foi uma ideia de merda.
E toda vez que me excedo, minha dignidade acorda de ressaca no outro dia.
Ressaca de dignidade. Isso provavelmente define muita coisa do que sofri no último ano. E, acabo de perceber, fez já um ano. Podemos dar vários nomes pra esse sentimento que parece uma gosma pegajosa, mas sem dúvida, a dignidade de ressaca é uma boa imagem.
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