"Droga.
Hoje eu tenho um encontro.
Droga."
Horas antes, eu nunca tenho vontade de ir aos encontros que marco. Devo estar ficando cada dia mais sem saco. Mas às 15h30 ela estaria lá me esperando, e eu tenho um mínimo de respeito. E fui, e ela parecia a imagem encarnada de Oxum, charmosa e rica, com enormes olhos e cílios. Eu fiquei pensando se ia conseguir trepar com ela. Gata demais pra mim.
No bar, não me acompanhou na cerveja. Usava mais maquiagem que eu e seu cabelo trançado parecia o de uma princesa africana. o meu estava recém lavado. Não me senti mulher, nem quis, nem fez falta. Eu parecia um babaca pensando na hora de tirar as roupas dela.
Ela é de Guadalupe, anda de patins e longboard. É linda, linda. Parece bem mais nova que eu. Estudantes, sempre me sinto velha perto deles.
E eu ainda não aprendi quando posso ou não beijar mulheres em público. Que merda de mundo escroto, pensei. Que merda deve ser passar a vida com vontade de beijar em público e não poder. Isso deixa poucas opções, então minha casa.
Muito gostosa. Preciso aprender esses lances de transar mulheres. Fui no feeling e parece que funcionou. Achei bom e estranho. Fiquei pensando num pênis, depois nos pênis para os quais não liguei muito nas últimas trepadas. Um pênis ali ia melhorar a situação? Senti falta de barba, de abraço protetor. Não senti qualquer conforto a mais do que achei que sentiria com homens. Nenhuma paixão a mais. A questão, vejam, não é pênis ou vagina, é claro que não. A questão é ter um coração cansado e sem muita esperança.
Tenho ofertado a meu próprio coração uma série de opções, que ele recusa como uma criança triste. O que fazer, Deus, com essa criança que não consigo animar com convites pras melhores brincadeiras e com os doces mais gostosos? Até brinquedos ofereci, meio transtornada por falta de resposta. A gente fica triste também, de saber que essa criança deve estar mesmo mais magoada do que deveria pra sua tão pouca idade.
Ainda espero aquele abraço de conforto? Não sei mais. Já não estou tão machucada. O que estou, então? Estou outra. Depois de se machucar e sarar como deu, acho que tenho uma perna torta, como quando se quebra e o osso cola errado. Será que vou precisar quebrar de novo pra por no lugar certo? Talvez não precise, talvez eu não ligue de ter um coração manco. Ou cínico.
O que eu procuro não existe.
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